D. NILDA: AMOR, FORÇA E PERSEVERANÇA NO SEMIÁRIDO

December 11, 2013

 Todas essas palavras que você vai ler foram ditas por Dona Nilda. Agricultora familiar, mãe, dona de casa, construiu sua casa ao sopé da Chapada do Araripe, no Crato. Dona Nilda é o espelho de muitas Nildas por esse sertão a  fora.  A  necessidade  engoliu  parte  de  sua infância  e  o  trabalho  duro  a amadureceu para o  rigor do mundo. Mas, onde deveria existir amargor, só se vê doçura de mel. Sua casa é um primor com plantinhas penduradas  no  teto,  nas  paredes, enfeitando a porta de entrada. Os filhos são iguaizinhos.  Envergonhados, ainda  não adquiriram  o  palavreado  da mãe, mas o sorriso no olhar está lá para qualquer um ver. Difícil se colocar no  lugar de Dona Nilda. Difícil  imaginar o que seja essa “gastura de sede”, como ela narra. Mas, a partir de seu relato, se passa a dar valor a cada gota d'água que se bebe. Assim, esse boletim* é para ela e para todas as mulheres que fazem desse Semiárido  um  lugar  mais  bonito  e acolhedor. Mulheres  sábias,  resistentes, amorosas. Afinal, toda sertaneja é, antes de  tudo,  forte.

 

 

 Eu me chamo Maria Nilda Fechine e, desde que eu comecei a trabalhar, nessa parte da Serra do Araripe, não  tinha outra casa que não  fosse a de meu pai. Comecei a trabalhar muito nova na roça, ajudando meu pai e minha mãe. Nós fazía carvão, brocava e plantava mandioca. Eu era tão nova que mal aguentava. Eu e minha irmã era as mais velha.

 

Quando  foi aparecendo meus  irmão, o  trabalho na  roça  foi diminuindo, mas o problema dessa serra sempre  foi água. Tinha dia que a gente chorava pra beber um copo d'agua e não  tinha. Pra conseguir água, minha mãe e meu pai carregava os balde na cabeça das Guaribas até em casa, distante três léguas. Essa água durava só três dias. A gente cozinhava e bebia. Não tomava banho.

 

Muitas vezes a gente descia com gastura de sede pra ir pegar água. Só bebia água quando chegava na  fonte. Aí meu pai comprou um  jumento e dois caçuá o que  já melhorou, aumentou a água e dava pra gente  lavar os pés.O  que  eu  sei  é  que,  aqui,  a  gente escapou mesmo foi com maracujá do mato  e  birro  da  macaúba  que  nós arrancava os pés e comia até a  raiz.

 

Quando eu tinha uns 16 anos, chegou um  carro  pipa  aqui.  Minha  mãe  se assustou porque a gente nunca tinha visto um por essas bandas. Nesse dia, minha mãe chorou demais com tanta água, era  tanta que encheu as vasilhas de  todo mundo por aqui. Passou o  tempo e eu me casei. Meu marido tinha um caminhão e meu pai cortava  lenha  pra  ele  vender,  aí  as coisas  já  foram  melhorando  mais.

 Nilda e seus filhos: Fechine e Rafael

 

Quando era na época de arrancar a mandioca todo mundo se juntava, colocava em cima do caminhão e  levava pra Casa de Farinha. De  lá,  já descia com a farinha pronta pra vender.Um dia, um vizinho deu umas oito jaquinhas pra gente. Foi por aí que começou a minha vida aqui. Desses pés de jaca, eu comecei a plantar goiaba, manga, abacate, banana. Eu aguava minhas plantas com uma água que eu botava numa câmara de ar. A água era dividida com meus vizinhos e quem estivesse precisando.Minha casa aqui era de  taipa. Pra você  ter uma  ideia,  eu  tinha  umas  cabra  que quando  subia  no  telhado  caía  uma parede!

 

 Visita de Intercâmbio em sua propriedade

 

 

Um dia, deram ao meu marido uns  tijolos  de  uma  construção  velha. Decidimos  fazer um  tanquinho e, pra isso, compramos um burrinho e uma carroça pra carregar os  tijolos. Foi minha maior alegria! Eu mesma desmanchava as paredes e colocava os tijolo em riba da carroça.

 

Com o material  que  sobrou,  meu  marido pagou  a  dívida  do  burrinho  e comprou cimento pra gente fazer o tanquinho. Fiquei morta de satisfeita! Chamamo meu irmão pra ajudar e, de pouquinho em pouquinho, com a água da câmara de ar, a gente subiu essa cisterninha de 11 mil litros d'água. Foi nossa primeira construção! Quando ela tava pronta, veio um pipa e colocou água. Pronto! Deu pra  todo mundo aqui se servir!

 

 O  tempo passou e eu  tive meus dois  filhos. Quando  recebi o salário maternidade,que naquela época não era muito dinheiro, mas pra gente era muito, meu marido então decidiu  fazer  uma  cisterna  maior.  Eu  mesma  preparava  a  massa.  Quando terminamos de construir coube 31 mil litros de água. Essa água abastecia toda a comunidade. Até que um dia chegou um rapaz aqui  na minha  porta  oferecendo essas cisterna-calçadão. Ele disse que era para quem plantava e que ela é produtiva. Eu frequentei as reuniões com outros moradores. Na Baixa do Maracujá foi ganho nove cisternas. Pra construir, ela foi muito trabalhosa. Mas todo mundo ajudava!

 

Terminamo minha cisterna em agosto de 2009. Quando foi em outubro, na primeira chuvinha que deu, eu  fui ver a cisterna enchendo e fiquei até o   fim da chuva! Aí pronto! Dessa água eu já me animei e plantei colorau em volta da cisterna. Ficou a coisa mais  linda do mundo! Mesmo antes da cisterna eu já vendia minhas coisas e participava da feira da ACB*.  Vendia  goma  frescas,  massa puba, galinha e ovo. Toda sexta-feira eu  tinha o dinheiro de minha  feirinha.

 

Agora, com a cisterna, eu   continuo com o colorau,  jaca,  a  manga  e  maracujá.  Tem pequi também que meus filhos apanham e, com a água da cisterna, eu plantei banana, verdura e aumentei os pés de abacate.

 

Eu  pergunto:  por  que  na  minha  terra  dá  macaxeira,  abacate, manga, banana, jaca, colorau e na de meu vizinho, não? Porque eu planto! Acordo cedo.  Faço meu  café,  já dou uma olhada  em meu quintal, dou uma olhada nos cajueiros. Eu me acho parte da natureza. Quando acordo de manhã, e não sei o que fazer, eu coloco a mão em uma árvore,  fecho os olhos e ali sinto uma energia. Pronto! Dali eu  tou pronta pra  tudo!

 

 A amizade surge em pequenos encontros...

 

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