D. NILDA: AMOR, FORÇA E PERSEVERANÇA NO SEMIÁRIDO


Todas essas palavras que você vai ler foram ditas por Dona Nilda. Agricultora familiar, mãe, dona de casa, construiu sua casa ao sopé da Chapada do Araripe, no Crato. Dona Nilda é o espelho de muitas Nildas por esse sertão a fora. A necessidade engoliu parte de sua infância e o trabalho duro a amadureceu para o rigor do mundo. Mas, onde deveria existir amargor, só se vê doçura de mel. Sua casa é um primor com plantinhas penduradas no teto, nas paredes, enfeitando a porta de entrada. Os filhos são iguaizinhos. Envergonhados, ainda não adquiriram o palavreado da mãe, mas o sorriso no olhar está lá para qualquer um ver. Difícil se colocar no lugar de Dona Nilda. Difícil imaginar o que seja essa “gastura de sede”, como ela narra. Mas, a partir de seu relato, se passa a dar valor a cada gota d'água que se bebe. Assim, esse boletim* é para ela e para todas as mulheres que fazem desse Semiárido um lugar mais bonito e acolhedor. Mulheres sábias, resistentes, amorosas. Afinal, toda sertaneja é, antes de tudo, forte.

Eu me chamo Maria Nilda Fechine e, desde que eu comecei a trabalhar, nessa parte da Serra do Araripe, não tinha outra casa que não fosse a de meu pai. Comecei a trabalhar muito nova na roça, ajudando meu pai e minha mãe. Nós fazía carvão, brocava e plantava mandioca. Eu era tão nova que mal aguentava. Eu e minha irmã era as mais velha.

Quando foi aparecendo meus irmão, o trabalho na roça foi diminuindo, mas o problema dessa serra sempre foi água. Tinha dia que a gente chorava pra beber um copo d'agua e não tinha. Pra conseguir água, minha mãe e meu pai carregava os balde na cabeça das Guaribas até em casa, distante três léguas. Essa água durava só três dias. A gente cozinhava e bebia. Não tomava banho.

Muitas vezes a gente descia com gastura de sede pra ir pegar água. Só bebia água quando chegava na fonte. Aí meu pai comprou um jumento e dois caçuá o que já melhorou, aumentou a água e dava pra gente lavar os pés.O que eu sei é que, aqui, a gente escapou mesmo foi com maracujá do mato e birro da macaúba que nós arrancava os pés e comia até a raiz.


Quando eu tinha uns 16 anos, chegou um carro pipa aqui. Minha mãe se assustou porque a gente nunca tinha visto um por essas bandas. Nesse dia, minha mãe chorou demais com tanta água, era tanta que encheu as vasilhas de todo mundo por aqui. Passou o tempo e eu me casei. Meu marido tinha um caminhão e meu pai cortava lenha pra ele vender, aí as coisas já foram melhorando mais.

Nilda e seus filhos: Fechine e Rafael


Quando era na época de arrancar a mandioca todo mundo se juntava, colocava em cima do caminhão e levava pra Casa de Farinha. De lá, já descia com a farinha pronta pra vender.Um dia, um vizinho deu umas oito jaquinhas pra gente. Foi por aí que começou a minha vida aqui. Desses pés de jaca, eu comecei a plantar goiaba, manga, abacate, banana. Eu aguava minhas plantas com uma água que eu botava numa câmara de ar. A água era dividida com meus vizinhos e quem estivesse precisando.Minha casa aqui era de taipa. Pra você ter uma ideia, eu tinha umas cabra que quando subia no telhado caía uma parede!


Visita de Intercâmbio em sua propriedade

Um dia, deram ao meu marido uns tijolos de uma construção velha. Decidimos fazer um tanquinho e, pra isso, compramos um burrinho e uma carroça pra carregar os tijolos. Foi minha maior alegria! Eu mesma desmanchava as paredes e colocava os tijolo em riba da carroça.


Com o material que sobrou, meu marido pagou a dívida do burrinho e comprou cimento pra gente fazer o tanquinho. Fiquei morta de satisfeita! Chamamo meu irmão pra ajudar e, de pouquinho em pouquinho, com a água da câmara de ar, a gente subiu essa cisterninha de 11 mil litros d'água. Foi nossa primeira construção! Quando ela tava pronta, veio um pipa e colocou água. Pronto! Deu pra todo mundo aqui se servir!

O tempo passou e eu tive meus dois filhos. Quando recebi o salário maternidade,que naquela época não era muito dinheiro, mas pra gente era muito, meu marido então decidiu fazer uma cisterna maior. Eu mesma preparava a massa. Quando terminamos de construir coube 31 mil litros de água. Essa água abastecia toda a comunidade. Até que um dia chegou um rapaz aqui na minha porta oferecendo essas cisterna-calçadão. Ele disse que era para quem plantava e que ela é produtiva. Eu frequentei as reuniões com outros moradores. Na Baixa do Maracujá foi ganho nove cisternas. Pra construir, ela foi muito trabalhosa. Mas todo mundo ajudava!

Terminamo minha cisterna em agosto de 2009. Quando foi em outubro, na primeira chuvinha que deu, eu fui ver a cisterna enchendo e fiquei até o fim da chuva! Aí pronto! Dessa água eu já me animei e plantei colorau em volta da cisterna. Ficou a coisa mais linda do mundo! Mesmo antes da cisterna eu já vendia minhas coisas e participava da feira da ACB*. Vendia goma frescas, massa puba, galinha e ovo. Toda sexta-feira eu tinha o dinheiro de minha feirinha.


Agora, com a cisterna, eu continuo com o colorau, jaca, a manga e maracujá. Tem pequi também que meus filhos apanham e, com a água da cisterna, eu plantei banana, verdura e aumentei os pés de abacate.


Eu pergunto: por que na minha terra dá macaxeira, abacate, manga, banana, jaca, colorau e na de meu vizinho, não? Porque eu planto! Acordo cedo. Faço meu café, já dou uma olhada em meu quintal, dou uma olhada nos cajueiros. Eu me acho parte da natureza. Quando acordo de manhã, e não sei o que fazer, eu coloco a mão em uma árvore, fecho os olhos e ali sinto uma energia. Pronto! Dali eu tou pronta pra tudo!

A amizade surge em pequenos encontros...

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