Flores do campo, flores guerreiras

October 13, 2015

No sítio Brejinho, em Crato, duas mulheres que participam do projeto "Jovens Familiares Produzindo no Cariri" contam sua história de vida, trabalho e participação na organização da comunidade

 

 

Mulheres, agricultoras, mães, poetas, batalhadoras. Seja mobilizando as mulheres da comunidade para conseguir melhorias, pintando a casa, cuidando de algum enfermo no hospital, organizando um evento para igreja, cuidando da roça ou até mesmo cuidando dos filhos de alguém para que eles se divirtam. Visitamos Maria e Antonieta, no sítio Brejinho, zona rural de Crato. E com elas aprendemos sobre a vida, humildade e respeito a tudo que nos rodeia.

 

Em uma manhã de temperatura agradável, em pleno outubro, dona Antonieta Maria, de 43 anos, nos recebe no terreiro de casa, sentada em baixo do alpendre coberto de palha e com uma sombra aconchegante, ela compartilha experiências de vida e adquiridas no projeto de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS). Frisando que aprendeu muito com as oficinas oferecidas pelo programa, além de também repassar o conhecimento que já tinha, comemorando ainda a construção da cisterna chapéu de Padre Cícero, pois a que tinha não era suficiente para o consumo.  

 

 

Antes de ser beneficiada pelo PAIS, Antonieta produzia apenas cebola e coentro para consumo próprio, agora planta alface,tomate, repolho e outras verduras. Além de estar produzindo mais, ela passou a comercializar na comunidade sua produção, o que vem ajudando na renda financeira da família. Para Antonieta a agricultura deve ser feita com dedicação, apesar das dificuldades encontradas: “Se trabalhar com amor, tudo dá certo. Mesmo sendo pesado, mesmo sendo sofrido”, afirma em tom de determinação.   

 

Filha de agricultores nasceu e foi criada no Brejinho com seus cinco irmãos, estudou até a sétima série, tendo que interromper os estudos pra cuidar do pai, desde sempre trabalhando com agricultura, casou com Cícero, também agricultor, e continuou na comunidade. Juntos há dezoito anos têm quatro filhos e está grávida do quinto, todos ajudam nas atividades agrícolas, mas faz questão que estudem e sigam o caminho que quiserem, desde que sejam felizes e façam o bem. Vivem desde que se casaram no local onde o projeto foi implantado, por intermédio da ACB com o grupo de mulheres da comunidade.

 

“Faço não por que sou obrigada, faço por que gosto. É plantando, colhendo, limpando, fazendo qualquer serviço na roça”, para Antonieta não tempo ruim e nem acomodação, sempre procurando melhorias para si e todos que a cercam, se engajou em sindicatos e associações rurais desde bem jovem. Até criar junto com outras mulheres o grupo de agricultoras familiar do engenho da Serra e Brejinho, começando a se reunirem em baixo de uma mangueira e com apenas quatro integrantes, hoje o grupo já tem trinta e seis associadas e está construindo uma sede própria.

 

Ela conta satisfeita os benefícios que já conseguiu junto com o grupo de agricultoras para a comunidade “Quem deu a associação (prédio) foi Deus e a força das mulheres. Não é de um grupo só, é nosso, é da comunidade”. Entre as melhorias estão encanação, cisternas, a construção da igreja, cinquenta casas do Minha Casa, Minha Vida e alguns benefícios sociais, como o seguro safra. Mas ainda não está satisfeita, e vai continuar batalhando para terminar o prédio da associação, com uma cozinha comunitária, uma sala para atendimento médico, já que não possuem um posto de saúde, uma máquina de fazer poupa de frutas e alguma iniciativa que consiga empregar os jovens dentro da própria região, evitando que os mesmos saiam de lá em busca de um futuro incerto.

 

Maria, de 61 anos, para de pintar as portas e janelas de casa e vem nos contar sobre a vida de agricultora e poeta, sentada na varanda entre carteiras escolares, que também estava pintando para levar a associação de agricultoras. Nascida e criada na comunidade tem doze filhos, cinco moram em São Paulo e o outros sete em Crato, além de dez netos e quatro bisnetos. Atualmente mora apenas com o marido, Cícero Mariano, no Brejinho, casados há 42 anos criaram os filhos trabalhando na roça e ele fazendo artesanato em couro.

 

Trabalhadora rural desde criança, Maria sempre esteve envolvida com associações agrícolas em busca de seus direitos, hoje também é coordenadora de um sindicato da comunidade e também ajudou na criação do grupo de agricultoras, auxiliando todos da maneira que pode, concilia o trabalho de agricultora com os serviços de casa e tem como hobby escrever e ler. Depois de ser contemplada com o sistema PAIS, passou a participar das oficinas e produzir mais, indo à feira realizada pela ACB em Nova Olinda para vender seus produtos.

 

Ajudar quem está precisando é algo que a faz se sentir bem, sem pedir nada em troca, ela estende as mãos com zelo e consideração ao próximo. “De tudo a gente faz um pouco, se tiver uma pessoa precisando, me liga e vou lá. Quando tem mutirão, nós estamos no meio. É água, cimento, massa”, relata satisfeita sobre o que já fez, não importa qual seja a necessidade ela sempre estará disposta a amparar quem precisa.

 

A falta de água é um problema recorrente na região, que possui uma nascente, porém por ser uma região com muitas subidas, o abastecimento ainda é feito pelos caminhões pipa e carregamentos com balde. A cisterna feita pelo PAIS tem ajudado muito no período chuvoso, conta Maria que faz parte do projeto há dois anos. Mesmo com a dificuldade em relação à água ela nunca pensou em deixar sua terra “Não troco a natureza pelo calor da cidade. Você tá se sentindo mal, aí vai pra de baixo de uma árvore dessas, toma um banho na bica (nascente do Brejinho), já fica melhor”.

Maria e Antonieta no prédio da Associação.  

O cotidiano do campo é a principal inspiração para os cordéis e poemas escritos por Maria, que também está escrevendo suas memórias em um diário, ela diz que gosta de ir anotando aos poucos sem pressa, com calma. E com um trecho de seus escritos que nos despedimos “Se você não tem o hábito de pela manhã orar, formular bons pensamentos antes de ir trabalhar. Quem não tem medo da vida, tem tudo para ganhar, pensamento positivo, crer em Deus ter fé na vida, acreditar no futuro com vontade decidida. Quem fizer assim terá a vitória garantida, a palavra é uma lei é ação e reação, se afirmar vou bem, as coisas melhorarão, porém se eu disser vou mal as portas se fecharão. Nunca pense em desistir daquilo que começou, acredite no talento que é o pai lhe confiou, quem tem fé sobre a montanha lhe mostra quem tem valor”.  
 

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